Essa semana, no #fashiontbt falamos sobre a história da calça, e como ela foi associada somente à moda masculina por muitos e muitos anos. Hoje em dia, uma mulher usar calças é apenas uma escolha, mas no século 19 era um enorme tabu.
A calça tem várias vantagens em relação às saias e aos vestidos para algumas ocasiões: durante o frio, para praticar atividade física, andar de bicicleta e etc. Quando falamos do verão entretanto, não vemos a hora de colocar uma saia! A não ser que.. você seja um homem.

A nossa sociedade ainda é muito conservadora quando falamos de diversos assuntos, e com moda não é diferente. Nós mulheres somos alvos de críticas quando a nossa roupa é muito curta, muito longa, muito justa, tem muito decote, é X ou Y. Eu sempre fui apaixonada por moda e principalmente por estilos alternativos e avant-garde, o que garantia muitos olhares esquisitos quando eu usava algo “fora do padrão” nas ruas. Quem nunca tentou usar algo diferente e foi chamado de ridículo?
Com homens, os padrões não são tão irreais nem massacrantes, mas há um certo preconceito em relação às saias “masculinas”. Masculinas entre aspas, porque pessoalmente não acredito no conceito de “saias masculinas”. Uma saia masculina nada mais é que uma saia e ponto. Pense, quando as mulheres começaram a usar calças, nós a chamamos de calça feminina? Claro que não!

Em uma entrevista ao PinkNews, Billy Porter disse:
“Qualquer mulher que veste uma calça é considerada “poderosa” porque calças são associadas ao o patriarcado. É como se (o patriarcado) fosse um complexo de superioridade. Então um homem põe um vestido e isso é nojento. Então o que você diz com isso é: “homens são fabulosos , mulheres são nojentas.” E eu não farei mais isso.”

Acredito que o que Billy gostaria de dizer aqui é que tudo que é tipicamente feminino, ou feito por uma mulher é considerado inferior, frágil, ruim, menos importante. E nós mulheres, principalmente mulheres que gostam de moda e beleza, quantas vezes ouvimos que tudo isso é uma futilidade? Nós mulheres sabemos na pele o quanto temos que trabalhar a mais pelo mesmo reconhecimento que um homem recebe com o mínimo de esforço, qualquer que seja a área em que atuemos.
Um exemplo fora da moda: Nos primórdios da computação, muito do que serviu de base para a criação dos softwares modernos foi desenvolvido por mulheres. O primeiro algoritmo criado para um computador foi desenvolvido por Ada Lovelace no século 18. Naquela época, programação era considerado um trabalho tedioso e consequentemente, feito por mulheres. Quando a computação decolou nos anos 60, o cenário se inverteu: desde então, a área foi dominada por homens, e ganhou muito mais prestígio. Além disso, muito se fez para apagar e descreditar as mulheres que abriram o caminho.
Outras coisas que são “femininas” e são vistas como inferiores? Cuidar de crianças. Se importar com os animais. Áreas profissionais como enfermagem, ensino ou cuidado com pessoas. E pasmem: ter sentimentos. A lista é imensa! E… mulher que é frágil né?

Todas essas questões me levaram à um questionamento mais profundo, dentro moda: roupas tem gênero? O que é roupa feminina? Ou masculina?
Há algum tempo atrás, surgiram várias marcas e coleções com a proposta genderless ou agênero, em português.

Uma proposta interessante, mas quando observamos com mais cuidado, notamos um grande problema: a roupa sem gênero se parece demais com uma roupa tradicionalmente masculina. Ela é mais larga, lisa, sem muitos recortes. Familiar não?
Chegamos à conclusão então de que nenhuma roupa tem gênero. Todas as roupas que já existem são genderless. Quanto à modelagem das peças, varia de designer para designer. Ludovic de Saint Sernin é um estilista que desfila no Paris fashion week men’s mas prefere o termo gender-fluid ou gênero-fluído em português. O designer cria suas roupas em um manequim feminino mas seus modelos de prova são homens e pessoas andróginas. Ele diz: “Para mim é mais uma idéia da roupa ser definida por quem à veste. Se está em um homem, é masculina, se está numa mulher, é feminina, se (a pessoa) é fluída, então a roupa também é.”
